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Marcelo Rezende responde a colunista da Folha de São Paulo

Saber ler e escrever é um privilégio que, ao saber, não nos damos conta. Batemos os olhos — ou as mãos em braile — e está tudo ali num ato contínuo. Mas nada se compara ao privilégio de ler o que está em extinção — é como se lêssemos sobre o passado no presente sabendo que não tem futuro. Um passado de 24 horas, mas passado. O hoje nas folhas é de um passado que faz Pedro Álvares Cabral estar descendo da caravela nesse instante — as folhas insistem, na obtusidade, que ontem é o agora. Por isso sofrem o pesadelo do fim. Mas eis que encontro abandonada no domingo a Folha de São Paulo. Estava ali solitária como um Robson Crusoé sem papagaio nem sexta-feira. Enroladinha num saquinho amarelo. Intocada. Ora, imagino quantos os envolvidos se deram de corpo e alma — e alguma pitada de raciocínio — para colocar ali, diante de mim e da xícara de café da padaria, o ontem com ares pernósticos de atualidade.
POLÊMICA, Marcelo Rezende:
Saber ler e escrever é um privilégio que, ao saber, não nos damos conta. Batemos os olhos - ou as mãos em braile - e está tudo ali num ato contínuo. Mas nada se compara ao privilégio de ler o que está em extinção - é como se lêssemos sobre o passado no presente sabendo que não tem futuro. Um passado de 24 horas, mas passado. O hoje nas folhas é de um passado que faz Pedro Álvares Cabral estar descendo da caravela nesse instante - as folhas insistem, na obtusidade, que ontem é o agora. Por isso sofrem o pesadelo do fim. Mas eis que encontro abandonada no domingo a Folha de São Paulo. Estava ali solitária como um Robson Crusoé sem papagaio nem sexta-feira. Enroladinha num saquinho amarelo. Intocada. Ora, imagino quantos os envolvidos se deram de corpo e alma - e alguma pitada de raciocínio - para colocar ali, diante de mim e da xícara de café da padaria, o ontem com ares pernósticos de atualidade.

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Saio folheando cada caderno - já não são tantos, o que me abrevia o sofrimento - até deparar-me com Antônio Prata. Ali, entre uma mordida no pão canoa com mais manteiga do que eu gostaria e um café com a xícara quente que me queima os lábios, sou apresentado ao colunista Antônio Prata. Penso: "Eis o nosso intelectual". Não um intelectual como outros, mas um intelectual moderno, ágil, de reflexões profundas de mesa de bar. Penso de novo: "Esse é dos bons!". Como nem tudo que reluz é ouro, certamente, pelo menos nessas folhas, há se ser Prata. Ligo para um, para outra, e pergunto ignorante: "Já ouviste falar de Antônio Prata?". Um, pelo menos um, saberia responder: "É o filho do Pratinha".  Tem pedigree. Agora sim, Antônio Prata é dessas unanimidades que hão de se perpetuar - ele próprio e outros seis o consideram uma unanimidade. Tudo no nosso Prata é definitivo: cada letra, cada palavra, cada frase, transformam-se em lágrimas e soluços de Homero a Kant: "Como nunca pensei nisso?", diriam eles diante do nosso imbatível Prata.    

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E o artigo desse domingo? Despreza Emile Durkheim como se fosse um qualquer. Ou melhor pensando, nós, leitores dessas folhas em quase óbito, não temos possibilidades de compreender Durkheim - só o nosso Prata. E a intimidade de nosso Prata com Durkheim? É uma amizade que transcende o tempo, a vida e a morte. Não há século que fez, faz ou fará romper a intimidade do nosso Prata com Durkheim. É como se os dois fossem tomar um picolé na esquina e o francês de pronto pergunta-se: "Morango ou chocolate?". E o nosso Prata, numa longa reflexão, sentencia como algo definitivo: PISTACHE. Não um pistache qualquer, soletrado sílaba a sílaba.

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Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre o conhecimento e a reflexão do nosso Prata a respeito da redução da idade penal. Eis que nosso letrado imagina a cabeça de um menor arrancada do pescoço num motim no presídio, caso a idade penal seja diminuída para 16 anos. Não consigo reproduzir a eloquência do texto, mas de mim - ou em mim - ele vê euforia na narração da história que inventou. Temo dizer que nosso Prata fica me assistindo - e melhor não dizer porque isso o envergonharia diante dos seis que o fazem uma unanimidade.  Traça o nosso Antônio Prata um paralelo entre o menor sem cabeça que ele criou e o Estado Islâmico. Só o nosso Prata para fazer as paralelas se encontrarem. Quando Ele (perdoe-me a maiúscula, mas se faz necessária) persegue a analogia profunda, os seis de sempre aplaudem a "Unanimidade". E lavam as mãos.  

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Vamos ao assunto: o nosso Prata é contra a redução da idade penal. Cita Durkheim como quem cita a carrocinha de cachorro-quente da esquina. E os seis gritam "Olê, Olá, o nosso Prata está botando pra quebrar". Esquece-se o nosso Prata, inebriado pelo talento que lhe persegue, de que seu amigo de picolé escreveu que "homicídios e roubos são imorais por excelência". Ou alertava para o respeito à propriedade e à honra de seus semelhantes. Ou que o mínimo de moral no convívio social abre o caminho para a civilidade nas relações sociais. Mas Durkhein, apontado como um dos mentores da sociologia moderna, é dito como um conservador. Sei lá de que água bebe o nosso Prata. É contra a redução da idade penal. Ou melhor, ele e os seis que lhe adornam a unanimidade são contra o que 87% da população brasileira são a favor. 87% que não aguentam mais menores e maiores matando e roubando, políticos afanando e a corrupção se alastrando. Para o nosso Antônio Prata, 87% dos brasileiros só não relincham por modéstia. Agora entendi perfeitamente que "nem tudo que reluz é ouro". É Prata.

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Fonte: R7
Imagens: Google.com.br
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